A 325 metros de altura na Amazônia, cientistas encontram vida dentro da névoa
20/04/2026
(Foto: Reprodução) Cientistas descobrem “elevador invisível” que transporta vida pela Amazônia
Um estudo conduzido no Observatório da Torre Alta da Amazônia (ATTO) revelou que o nevoeiro formado sobre a vegetação atua como um mecanismo natural de transporte de microrganismos. Esse processo, segundo os cientistas, contribui diretamente para a regeneração e o funcionamento do ecossistema.
📱 Receba conteúdos do Terra da Gente também no WhatsApp
A pesquisa, que ganhou destaque internacional após publicação na renomada revista científica Nature, foi realizada em uma área preservada a cerca de 150 quilômetros de Manaus (AM). Conhecida como pristine, termo utilizado para descrever uma região considerada intocada, o local atua como uma área protegida.
O trabalho, feito em cooperação entre pesquisadores brasileiros e estrangeiros, identificou que as gotículas da névoa carregam bactérias e fungos desde o solo até as camadas mais altas da atmosfera, permitindo a dispersão por diferentes regiões da floresta.
Fenômeno presente em n[evo da Amazônia surpreende pesquisadores
Bruna Sebben
O projeto foi motivado após Bruna Sebben, pesquisadora da Universidade Federal do Paraná (UFPR), identificar a presença de microrganismos na torre de pesquisa. Como a copa das árvores atinge aproximadamente 40 metros de altura e a torre (ATTO) chega a 325 metros, a descoberta acendeu uma dúvida nos cientistas sobre como esses indivíduos, presentes no solo e nas plantas, chegavam tão alto.
Com base na coleta feita por um amostrador de névoa — dispositivo capaz de capturar gotículas de água da nuvem —, a equipe identificou que o nevoeiro era o vetor de transporte. As amostras foram coletadas ao longo de mais de um ano e analisadas em parceria com o Instituto Butantan.
Foram identificados oito tipos de bactérias e sete tipos de fungos presentes no material.
"Encontrar organismos vivos (na névoa) nos fez pensar na importância ecológica que essa nuvem tem. Esses fungos e bactérias são essenciais, pois devolvem nutrientes à floresta, então percebemos que o nevoeiro ajuda no processo de dispersão destes microrganismos", afirma Bruna.
Veja mais do Terra da Gente:
A poda estimula o crescimento e a saúde das plantas? Veja o que a ciência diz
Avistar 2026: encontro de observação de aves celebra 20 anos em SP e recebe 2ª edição do Fórum Observai
Hora do Rancho: aprenda a fazer cuca de abacaxi; sobremesa saborosa
Torre passa dos 320 metros de altura na Amazônia
Bruna Sebben
O "elevador" natural
O professor da UFPR Ricardo Godói, líder da pesquisa, explica que o ambiente oferece condições ideais para observar processos naturais sem interferência humana significativa. Segundo ele, o nevoeiro se origina próximo ao solo, atravessa a vegetação e sobe pela coluna atmosférica antes de se dissipar.
"Imaginei que o nevoeiro poderia funcionar como um elevador, transportando partículas do solo para camadas mais altas da atmosfera", diz o pesquisador.
Imagem do equipamento utilizado na pesquisa
Bruna Sebben
Papel na regeneração
Na Amazônia, a decomposição de matéria orgânica ocorre de forma acelerada, impulsionada pela ação de microrganismos que degradam resíduos vegetais e reciclam nutrientes. Conforme o estudo, o transporte promovido pelo nevoeiro ajuda a distribuir esses organismos de forma mais homogênea pela floresta, favorecendo a regeneração e a manutenção do equilíbrio ecológico.
"Na Amazônia, árvores enormes que caem no chão somem em dois anos devido à altíssima atividade microbiana que degrada a celulose e revigora a floresta", detalha Ricardo. Sem esse mecanismo de dispersão, os microrganismos tenderiam a permanecer restritos a áreas específicas.
Além da regeneração, o fenômeno também pode influenciar processos atmosféricos, como a formação de nuvens e chuvas, já que as partículas biológicas podem atuar como núcleos de condensação.
Névoa registrada na Amazônia
Bruna Sebben
Ameaças ao ciclo natural
O funcionamento desse sistema depende diretamente das condições ambientais da floresta, uma vez que a formação do nevoeiro está associada à alta umidade e à diferença de temperatura entre o solo e o ar.
Para o pesquisador, atividades antrópicas, como desmatamento e queimadas, podem alterar essas condições e comprometer o ciclo.
"Em áreas degradadas, esse processo tende a ser interrompido, o que pode afetar a distribuição de microrganismos e, consequentemente, o funcionamento completo do ecossistema", finaliza.
Local da pesquisa
Bruna Sebben
*Sob supervisão de Rodrigo Peronti.
VÍDEOS: Destaques Terra da Gente
Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente